Onde velhinhas não têm vez


Tenho o hábito de memorizar frases ao acaso – geralmente engraçadas, mas nem sempre – que passam anos, feito provérbios inúteis, flutuando na minha cabeça. Nunca entendi o porquê. Talvez seja uma afetação pseudo-erudita, mas é raro que essas frases tenham pedigree. Ou talvez seja uma maneira de ter gente mais espirituosa do que eu me fazendo companhia mesmo quando estou sozinho. Provavelmente são só gritos de “rapaz!” do Xaropinho do inconsciente em momento de crise. Seja como for, guardei uma dessas frases de uma história – e nem sou fã de esportes, juro – que Gary Lineker, ex-atacante da seleção inglesa de futebol, contou com admiração da vez em que conheceu outro atleta-ícone, o jogador de basquete Michael Jordan.


Capa de Sigmund Freud, Obras Completas vol. 07: "Os chistes e sua relação com o inconsciente" (1905), Ed. Martin Claret.


Jordan tem a fama de ser extremamente competitivo. Sei que isso é tão revelador quanto dizer que "Michael Jordan é alto": seis vezes campeão do torneio da NBA, cinco vezes eleito melhor jogador nas finais do campeonato, duas vezes medalhista de ouro olímpico... uma lista que guarda notável semelhança com o currículo de alguém ambicioso e que gosta de vencer. Mas, ainda assim, sua reputação foi conquistada entre pares num meio profissional em que “ser ambicioso” e “gostar de vencer” são pré-requisitos tão banais quanto “ser alto” ou “ter duas pernas”. E ele gostava tanto de competir que, até no auge da carreira, para descansar das disputas nas quadras, jogava golfe e fazia apostas.

Lineker conta como soube que Jordan, de passagem pela Inglaterra, queria jogar golfe em Sunningdale, clube de que o atacante inglês é sócio, e como logo aproveitou esse pretexto para se oferecer como anfitrião e conhecer a lenda do basquete. O visitante estava acompanhado de cinco amigos, alguns deles colegas de time, além do ator e também golfista amador Samuel L. Jackson, “que oferecia e fumava charutos”. Lineker levou consigo seu amigo Queenie, sócio do clube e ex-jogador de golfe profissional, que por acaso também gostava de apostar, mas sobretudo de levar vantagem em cima de jogadores com mais dinheiro do que juízo. Antes da primeira tacada, o amigo de Lineker sugeriu, desinteressado: “Michael, que tal jogar a dinheiro, uma pequena aposta?”. "Claro", ele aceitou, tranquilo. Queenie então quis saber: "e quanto você gostaria de apostar?". Jordan tragou seu charuto e propôs, cortês feito um pistoleiro de Sergio Leone, “qualquer quantia que te deixe desconfortável, cara”. (Em inglês, "whatever makes you uncomfortable, man"i.)


No Oeste sem lei, ganhava o jogador que primeiro botasse buracos nos outros.


Há também uma frase cuja autoria o Ruy Castro atribui a Groucho Marx, e a traduz assim: “um amador pensa que é engraçado vestir um homem como uma velhinha, sentá-lo numa cadeira de rodas e dar um empurrão na cadeira, para que ela desça a ladeira feito uma bala e se esborrache contra um muro de pedra. O profissional sabe que isso tem que ser feito com uma velhinha de verdade”ii. A história da descoberta dessa pérola de sabedoria groucho-marxista foi escrita com o sangue de incontáveis velhinhas imagináriasiii. Porém, a frase do Groucho e a história do Michael Jordan sugerem algo já bem sabido sobre o humor: que, a despeito da crença do senso comum, a piada mais séria é mais engraçada, pois o prazer do jogo é aumentado pelo elemento de incômodo, de se ter algo a perder. O alívio cômico é mais satisfatório quando há algum risco, uma aposta emocional de quem se põe no jogo, isso talvez valha tanto para quem conta uma piada ou escreve, quanto para ouve ou quem lê. Nós, o público, não nos importamos muito com homens fantasiados rolando ladeira abaixo, mas nos preocupamos com velhinhas em cadeiras de rodas. Às vezes, para o azar das velhinhas.

Parece inevitável que humoristas e pessoas comuns continuem a visitar temas sensíveis ou mesmo dolorosos para fazer graça, mas não acho que estes sejam a única matéria-prima do humor. Também não concordo muito com a lição de que “o alvo da piada deve ser o opressor e não o oprimido”, por discordar da sua premissa. Sim, tudo que se diz é dito em algum contexto simbólico e material, permeado por relações específicas de poder, de exploração e de desigualdade. Porém, embora eu tenha comparado o humor com o esporte, não acho necessário que sempre haja oprimidos e opressores, vencedores e vencidos. Afinal, tanto frescobol quanto boxe são esportes, e, embora haja algo em jogo em ambos, em um dos dois casos algo deu muito errado se alguém quebrou o nariz.


Jean-Paul Belmondo tinha nariz de jogador de frescobol.

Mas sempre suspeitei da coragem de comediantes que, com habilidade e sucesso variados, têm predileção pelo humor “ácido”. Desconfio especialmente daqueles que são intencionalmente ofensivos. Não porque “o alvo da piada deve ser o opressor e não o oprimido”, mas porque a escolha de falar de assuntos leves e corriqueiros também traz seus riscos específicos: nada é mais perigoso pra quem quer fazer rir do que ser inofensivo. Exceto, talvez, implorar pela aprovação do público. Exigir o riso é prerrogativa nossa. Assim, falar de temas mórbidos, chulos ou – seja lá o que isso queira dizer hoje em dia – polêmicos, ajuda a evitar esses possíveis constrangimentos: por um lado, afeta uma indiferença do comediante quanto aos sentimentos alheios, o que cria uma ilusão – com desespero bravateiro, às vezes – de autoconfiança; por outro, cria um estado de tensão que torna necessário algum suspiro. O comediante atiça a demanda por distensão e, se é capaz de oferecer uma piada com engenho, o público a compra satisfeito e agradece.

Todavia, vocês, como eu, já ouviram defesas insistentes da frivolidade do humor. A mais comum é a máxima redundante: “uma piada é só uma piada”. A frase já se tornou habitual quando algum comediante é surpreendido pela visita do oficial de justiça, ou quando algum colega de trabalho sem tato – ou, o horror!, nós mesmos – calcula mal o que cabia dizer numa conversa de bar. Vale lembrar, de modo igualmente redundante, que uma piada racista é racismo, uma piada capacitista é capacitismo, uma piada misógina, misoginia. Não só porque isso é o que a lei penal tipifica, mas porque dizer o que se quer dizer sem dizê-lo explicitamente é, com exceção das tortas, a arma mais comum em qualquer arsenal cômico. E até quem não é um profissional sabe a diferença entre um homem disfarçado, uma velhinha de verdade numa piada e uma violação do estatuto do idoso.




Julinho da Van, crítico cultural, esclarece a relação entre intenção subjetiva e contexto.


Ainda assim, é tão difícil negar o ridículo das piadas quanto o lúdico dos jogos ou a umidade da água.


Piadas: como nascem, onde vivem, de que se alimentam?


Diferente de mim, de você, de Groucho Marx, das velhinhas ou de Michael Jordan, as piadas não nascem iguais. Aliás, a piada é só um dos artifícios do humor, que é algo que pode ser mobilizado em contextos variados, elaborado de maneiras e com intenções muito diversas: a charge politica não é a provocação entre amigos, que não é a anedota de português, que não é a piada sobre o holocausto, etc. E, já foi dito, uma piada antissemita é antissemitismo, uma piada transfóbica é transfobia, etc. Porém, há algo de verdade na afirmação de que “uma piada é só uma piada”. Pois a princípio uma piada não tem compromisso com a edificação moral. Ou, se o tem e é mais pedagógica do que engraçada, arrisca não ser uma piada. Tampouco ela precisa exprimir uma opinião. Costuma conotar um ponto de vista, mas não precisa conquistar partidários; pode, aliás, representá-lo ironicamente, torná-lo ridículo. Uma piada costuma ter conteúdo semântico, ou seja, sentido; mas comunica o quê? O que sabemos do malfadado pintinho que não tinha cu, ao aprendermos seu fim explosivo? É comum que forma da piada brigue com seu conteúdo, dizendo pouco, mas provocando o efeito estético nada sublime do riso, o primo pobre da catarse trágica. A piada não precisa ter forma argumentativa, mas, quando a tem, se estrutura com calculada incoerência interna, contém sentidos paradoxais, e tem graça na exata medida em que fracassa como apelo ao bom senso e aos bons sentimentos. Numa palavraiv, a piada é uma forma de escapar.


O humorista, no nobre exercício da sua profissão.

Também não há novidade em dizer (pensem naquelas máscaras cliché) que o trágico e o cômico se avizinham. Talvez até morem juntos. Nelson Rodrigues, cronista e dramaturgo famoso pelo talento humorístico, descrevia o luto com imagens grotescas e hilárias. Na crônica “O grande homem”, comparava a sobriedade do funeral de Guimarães Rosa na ABL – o “grande homem” do título – com o velório de seu vizinho de infância no subúrbio, o Lemos, assim:


"Desde garotinho eu sou fascinado por qualquer dor, inclusive as físicas. E posso dizer que não houve no velório do Lemos, ninguém omisso, indiferente ou frívolo. As pessoas lá entravam e começavam a estrebuchar, a bater com os pés, em um transe mediúnico. Perdi a conta dos ataques. E, na hora de fechar o caixão, foi espantoso.

Eis o fato: - com súbita e frenética agilidade, a viúva deu um pulo inverossímil. Deu um pulo e montou, solidamente, no caixão. Era uma senhora gorda e fez isso. Teve que ser arrastada por uns dez. Fecho os olhos e ouço seus gritos: - 'Quero ser enterrada com o Lemos!'. E esganiçava o apelo: - 'Me leva contigo! Lemos, Lemos!'. Também ela o chamava de Lemos".v


Nelson também conviveu com a morte e a violência no início da carreira jornalistica, como repórter das páginas policiais. Na maturidade, criticava os jornais pela simulada objetividade com que cobriam eventos catastróficos. Na sua opinião, narrar desgraças sem horror e pontos de exclamação era valer-se de uma linguagem tão fria que, ironicamente, em nome da verdade factual, falseava a realidade da experiência. Em "Os idiotas da objetividade", criticou o Jornal do Brasil pelo modo como relatou o assassinato de JFKvi. Este assassinato, aliás, foi uma de suas obsessões. Em outras crônicas, reescreveu ao seu modo este mesmo episódio várias vezes, contando como, no fatídico dia em que o presidente estadunidense desfilava ao lado da primeira-dama num Lincoln Continental em Dallas, "a bala arrancou-lhe o queixo forte, crispado, vital"vii, e que Jackie Kennedy "... ainda ria, ou sorria, quando a cabeça do marido ensanguentou-lhe o colo. Em seguida, 'a mulher bonita' subiu, de gatinhas, na capota. E chorava grosso como um homem"viii. Um dos seus conhecidos aforismos explicava o recurso a essas imagens patéticas: "a verdadeira dor não se assoa"ix. Perdas irreparáveis aniquilam os mandamentos do decoro.

Nelson Rodrigues também escreveu sobre suas dores mais íntimas, que não foram nem pequenas, nem poucas. O título A menina sem estrela, da coletânea de memórias que escreveu para o Correio da Manhã entre fevereiro e maio de 1967, é uma alusão a sua filha, Daniela, que ficou cega por sequela de seu nascimento prematurox. No mesmo livro, Nelson relata o assassinato do irmão Roberto, aos 23 anos, na sede do jornal de seu pai, A Crítica, assim como o luto e a morte do próprio pai, dois meses depois, arrasado pela morte brutal do filhoxi. À época em que escrevia essas memórias, outro irmão seu, Paulo, tragicamente tornou-se assunto de uma dessas crônicas ao morrer soterrado, com esposa e filhos, vítimas de um deslizamento na Rua General Cristóvão Barcelos, em Laranjeiras. Acho justo observar que nesses casos Nelson preferiu evitar o grotesco. Ainda assim, o choro e o riso têm em comum serem viscerais e involuntários, e suas fisionomias distintas preservam traços de seu parentescoxii.

Há uns anos, acompanhei uma pessoa querida num velórioxiii. Estávamos em viagem fora do país quando ela soube do falecimento de sua mãe. A notícia pegou a família toda de surpresa. Chegávamos num AirBnB no fim da tarde de uma quarta-feira, quando fomos avisados da sua internação. Contudo, no domingo anterior, a mãe parecia ótima e festejou o Ano Novo com irmãs, sobrinhas e amigos. Quinta de manhã recebemos a notícia da sua morte. Só conseguimos passagem de retorno para casa na sexta. No sábado, família, amigos, sua filha e eu velávamos seu corpo.

Vocês sabem como é velório. Reencontros, choro, abraços, amigas precisando de consolo consolando amigas precisando de consolo. Gente se habituando ao pretérito perfeito. “Pelo menos, ela aproveitou bem a vida”, “eu não vou mais dançar com você? Não é possível”, “essa aí se divertiu”. No fim do velório, o rabecão parou à porta da capela. Após algum burburinho, entendemos que ele levaria o caixão até uma gaveta no alto duma colina, e que nós seguiríamos a pé. A subida era íngreme, mas ninguém quis trocar de lugar com a convidada de honra. Foi um caminho desconfortável, não só pelos paralelepípedos, mas pelo cansaço acumulado dos altos e baixos da semana, e porque no fim do trajeto a família e amigos encerrariam os restos mortais de alguém que amavam numa gaveta, lacrariam a tampa do jazigo com cimento, e só.

Ocorreu de alguém se queixar, “nossa, olha só o que você faz com a gente?”, o que provocou novos protestos: “ela sempre faz assim! Tinha que se mudar pra longe?”, “nem agora você dá descanso”. Fizemos o caminho devagar, chorando e rindo. Achei bonito, triste, ri junto, mas fiquei calado. A verdade é que eu não conhecia tão bem a velhinha da piada.


Quando eu penso em humor, penso em Ingmar Bergman.

Não estou sugerindo que o modelo de etiqueta a ser seguido por teatros e clubes de stand up seja um velório, embora alguns desses lugares façam as vezes de cena do crime e de túmulo do humor. E ninguém, nem eu mesmo, aguenta mais discussões no estilo "piada em debate", ou tratados sisudos sobre o limite do humor. Crianças já sabem rir antes mesmo de tirar as fraldas, e ninguém quer os conselhos de uma Glória Khalil do riso. E quem quer gozar com a infelicidade alheia sabe o que faz e vai continuar a fazê-lo com alegre cinismo. Além disso, o colapso climático está aí, assim como a reabilitação do fascismo e das relações de trabalho do século XIX, agora mais precárias e com aplicativos. Recém saímos (saímos?) duma pandemia agravada por governantes cuja incompetência só é superada pela covardia, entre eles um babuíno com transtorno de personalidade que ria de gente de verdade morrendo sem ar e sendo enterrada em covas coletivas. Não satisfeito, após capitanear uma tentativa de golpe frustrada apesar do apoio tácito, digo, tático das Forças Armadasxiv., ele agora faz piada em juízo no STF e implora anistia por crimes que jura não ter cometido, rendendo homenagem à frouxidão cu de pantufa típica da nossa tradição autoritária civil-militar. Não sei o limite do humor de vocês, mas o meu esgarçou.

Fugi um bocado do assunto, mas volto ao tópico do humor como fuga. Só falo por mim, mas não tenho o hábito de fugir daquilo que acho inteiramente inofensivo. E não me envergonha assumir que tenho alguma experiência em fugas: já corri de baratas, de cachorros, de gansos, da minha mãe com uma Havaiana em punho, de trabalho, de mensagens de whatsapp, de silêncios constrangedores que precedem discussões de relacionamento, de compromissos sociais e de outras obrigações. Sei que é possível fugir de dívidas, de assalto, da Receita Federal e da polícia. Se algo mais grave me ameaçasse – tentativa de homicídio, doença incurável –, desejaria a fuga ainda mais. Portanto, que uma piada seja só uma tática escapista não a obriga a tratar de um assunto trivial. E é ótimo que trate de assuntos triviais, mas quanto mais opressiva nossa situação, maior o desejo de perspectiva e leveza. Gostamos, e talvez tenhamos necessidade de transformar juntos o horror em ridículo, extraindo-lhe o veneno para torná-lo palatável, mastigável, digerível. Mas isso convida a pergunta do que se põe em jogo, da arte de escolher velhinhas para o sacrifício humorístico, do cacife que temos para empenhar, da quantia que basta para nos causar desconforto. Jogar com fichas de mentirinha não tem lá muita graça, mas tampouco há cabimento em fazer nosso jogo com as fichas dos outros E há ainda menos em, ao sermos flagrados, acusar os donos legítimos das fichas de falta de espírito esportivo. Há algo de corajoso, ou apenas de humano, em reconhecer em grupo nossas fraquezas e traçar uma rota de fuga. Porém, isso convida a pergunta de que medos ocultos tentamos afoitamente apaziguar quando buscamos esconderijo no sofrimento alheio.


P.S.:


Talvez eu devesse ter avisado láááá no início que a Alexandra Moraes há muito já havia passado o gabarito. Puxa vida, tarde demais. Às vezes, há sim o que aprender com a piada do Pintinho.





Sobre o Autor:

O Autor morreu em Paris, em 1967. O assassino foi o Prof. Barthes, na biblioteca do Collège de France, com a máquina de escrever.



i Olá. Nada torna um texto leve e atrativo como notas de rodapé. Tenho predileção pelas longas e digressivas, escritas em letrinhas miudinhas, que parecem a obra de diligentes formigas pedantes. O fato é que, talvez por ser o tipo de pessoa que nove a cada dez psiquiatras descreveriam como “uma figura!”, perco o sono se não descubro de onde as pessoas tiram o que dizem, por mais inútil que seja essa informação. E, por não saber muito bem como agradar aos outros, acabo fazendo as coisas como me agradam. Assim, sei que pelo menos uma pessoa ficará feliz. Mas faço o seguinte acordo com quem foi gentil de vir até aqui: as notas de rodapé, que serão MUITAS e DESNECESSÁRIAS, ficarão no fim do texto, podendo ser ignoradas sem o mínimo prejuízo do leitor. Vale o mesmo para o corpo do texto e para quase tudo que se publica na internet. Ah sim, ia me esquecendo. A história, nas palavras do Lineker, aqui: https://x.com/garylineker/status/1260300597984661510

ii “O melhor do mau humor – Uma antologia de citações venenosas”, edição e tradução de Ruy Castro, Ed. Companhia das Letras, p.29.

iii Em nome do fair play, aviso que esse comentário é uma paráfrase disso aqui: https://www.youtube.com/watch?v=fGYTaAwGcwo

iv Tarde demais.

v “O óbvio ululante – Primeiras confissões”,p. 29. Todas as citações de Nelson Rodrigues aqui são das edições organizadas por, ele de novo, Ruy Castro, publicadas pela Companhia das Letras.

vi “A cabra vadia – Novas confissões”, p. 48.

vii Do livro “A menina sem estrela – Memórias”, p. 47. As variações dessa frase se multiplicam nas suas crônicas. Na já citada “Os idiotas da objetividade”, p. 48, ele escreve: “Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi John Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto na manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar da desumanização da manchete.”.

viii “Um mundo de canalhas”, do livro “O óbvio ululante – Primeiras confissões”, p. 275.

ix É o título de uma das crônicas de “O óbvio ululante – Primeiras confissões”, p. 31. A frase reaparece numa de suas memórias em “A menina sem estrela”, p. 93.

x Capítulos 10 e 11.

xi Capítulos 21 a 25.

xii Aqui uma nota muitíssimo longa e desnecessária (sou um homem de palavra, cf. nota I). Sobre sua carreira como dramaturgo, Nelson diz “(…) o meu teatro não seria como é, nem eu seria como sou, se não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato de Roberto” (“A menina sem estrela”, p. 84). Nelson relata algo semelhante a uma conversão mística ao teatro, ao ir a uma peça cômica anos após o falecimento do irmão. A conversão foi acompanhada de uma aversão violenta ao teatro de humor. Novamente, acho notável que, ao menos nas crônicas, ele opte por ilustrar sua indignação moral contra o riso no teatro – ou contra o teatro dedicado especialmente ao riso  com imagens de ridículo flagrante: “Três anos depois, descobri o teatro. Fui ver, com os outros, um vaudeville. Durante os três atos, houve, ali, uma loucura de gargalhadas. Só um espectador não ria: - eu. Depois da morte de Roberto, aprendera a quase não rir; o meu próprio riso me feria e me envergonhava. E, no teatro, para não rir, eu começava a pensar em Roberto e na nudez violada da autópsia. Mas, no segundo ato, eu já achava que ninguém deve rir no teatro. Liguei as duas coisas, teatro e martírio, teatro e desespero. No terceiro ato, ou no intervalo do segundo para o último, eu imaginei uma igreja. De repente, em tal igreja, o padre começa a engolir espadas, os coroinhas a plantar bananeiras, os santos a equilibrar laranjas no nariz como focas amestradas. Ao sair do vaudeville, eu levava comigo todo um projeto dramático definitivo. Acabava de tocar o mistério profundíssimo do teatro. Eis a verdade súbita que eu descobrira: - a peça para rir, com essa destinação específica, é tão obscena como seria uma missa cômica”.

xiii Conto a história com permissão dela, aliás.

xiv Para mim, “não vou entrar na sua canoa furada, mas mande notícias da outra margem do Rubicão” é apoio. E nem sei se dá pra chamar de “tácito” servir de AirBnB de golpista.   




Comentários